domingo, 31 de julho de 2011

Novo tasco

Há coisas que queremos. Entre o roncar dos automóveis que rangem pelas ruas, os Coldplay que passam na rádio, o barulho das obras em quase todos os prédios, mais uma bica a sair, há sonhos possíveis aqui deste café. Devaneia-se um pouco. Há dias ouvi, num documentário, que para vivermos todos bem temos que voltar à Idade do Ferro, a existência de um perfeito equilíbrio entre a existência humana e a manutenção da natureza. É pouco. Não quero viver entre as árvores em perfeita harmonia porque uma vida sem conflito não é vida. Mas conflito não é esta guerra. Quero tomar as coisas nas minhas, nas nossas, mãos. Andar por aí sem rumo nem destino, mas com sentido. Arrancar a felicidade dos escombros dos sonhos perdidos. Celebrar meias-vitórias com um copo.

Hoje, onde qualquer partido de esquerda merece pouco mais que um bocejo, que o sindicalismo é uma marcha fúnebre pela manutenção do que existe, e em que a ocupação de uma praça teve tanto de revolucionário como de missa evangélica, cá estamos à procura de caminhos. Vagueamos a cidade à procura do que queremos, de vez em quando saímos para respirar e voltamos. Sobrevivemos, mas queremos viver. E fazemos por isso.

Ler mais no Ladrões de Gado

sábado, 30 de julho de 2011

Bruscamente no verão passado


Os meteorologistas, juntamente com outros especialistas nas coisas do tempo, disseram-nos que o verão de 1975 foi quente, os mais ousados chegaram a apelidá-lo de tórrido. Daqui a trinta anos os mesmos especialistas, ou os seus descendentes, talvez digam que a deslocação do anti-ciclone dos Açores para norte provocou uma súbita descida das temperaturas, quiçá provocada pelo vento que soprou forte a moderado acima do Cabo Carvoeiro.
A propósito do vento, os historiadores, esses sub-meteorologistas encartados para a prosa, sempre foram pródigos em metáforas sobre o vento. É ver as vezes que eles fizeram alusões aos «ventos da história» para descrever o derrube dos imperialismos em África e o desmoronar das ditaduras no sul da Europa. Outro tópico dilecto dos historiadores é o roubo, sobretudo quando ele era feito por bandidos sociais que agiam contra os inimigos principais dos pobres. Porém, a história encarregou-se de esculpir um novo tipo de bandido que, a pretexto de cuidar da saúde do Grande Outro (o Capital) e zelar para que ele continue a prosperar, veio trazer-nos uma violenta desforra social. Porque agora é verão, o novo bandido veio ao ritmo cha-cha-cha du loup infligir-nos pesadas medidas de austeridade. O objectivo é sugar-nos até ao tutano e consumar uma transferência massiva dos rendimentos do trabalho para o capital.
 Um exemplo disso é o aumento de tarifas nos transportes públicos. Por exemplo, uma pessoa que venha de Almada, ou de Paço de Arcos, ou de Loures, e que utilize o passe L12, passa a pagar 55,55€ em vez dos 48,30€ anteriores. O passe L123 passa de 55€ para 63,25€. Quem utiliza o passe combinado Metro/CP – essa invenção dos administradores das empresas de transportes, sempre com um olho no lucro e outro na privatização – passa a pagar 49,95€ em vez de 43,45€. Com estes aumentos caminhamos a passos largos para o fim do passe social, que aliás aumenta mais do que um bilhete simples, além de estarmos a assistir a uma penalização generalizada de quem reside nas áreas suburbanas das grandes cidades. Não precisamos chamar o engenheiro Guterres para nos vir fazer as contas. Todos percebemos que este aumento é um ROUBO, desta feita efectuado por bandidos com gravata e capital que estão apostados em fazer do verão de 2011 o verão do nosso descontentamento.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Seminário Pensamento Crítico Contemporâneo IDENTIDADES E POLÍTICA

O debate em torno das chamadas questões de identidade tem sido objecto de uma enorme controvérsia mediática, politica e académica, que tem ganho forma em discussões em torno do multiculturalismo, do feminismo ou dos direitos LGBT, mas também, mais recentemente, em torno de questões relativas à identidade socioprofissional, com o tema da precariedade a dar nova ênfase a debates em torno da problemática do trabalho. Este curso pretende discutir a relação entre política e identidade a três níveis diversos mas entre si relacionados – etnicidade, género e classe –, sendo que ao mesmo tempo pretendemos debater a própria ideia de identidade enquanto base da acção política. Trata-se de um debate a ter sem identificar nenhum público preferencial e para o qual convidámos académicos e activistas que sobre estas questões se têm debruçado.

Organização: UNIPOP e revista Imprópria

Local: Fábrica de Braço de Prata (Rua da Fábrica do Material de Guerra, n.º 1, Lisboa – junto aos correios do Poço do Bispo)

Datas: Dias 17 e 24 de Setembro, 1, 8 e 15 de Outubro, das 17h às 20h

Inscrições: 20 euros (inclui o acesso a todas as sessões e a todo o material em discussão no seminário, bem como um exemplar do n.º 1 da revista Imprópria).

A inscrição em sessão avulsa está limitada à disponibilidade de lugares, não sendo susceptível de reserva prévia. Nesse caso, o valor da inscrição é de 6 euros. A inscrição deve ser feita por transferência bancária, através do NIB 0035 0127 00055573730 49, seguida de e-mail com o comprovativo para cursopcc@gmail.com.

Lugares limitados.

No final do curso será emitido um certificado de frequência.


Programa (provisório):

17 de Setembro

Mesa-redonda «Identidade e sujeitos políticos»

António Guerreiro

Bruno Peixe Dias

Miguel Serras Pereira

Fátima Orta Jacinto

Hugo Monteiro


24 de Setembro

Classe
João Valente Aguiar – conferência

José Neves – leitura crítica do texto «Algumas observações sobre classe e "falsa consciência"», de E. P. Thompson


1 de Outubro

Etnicidade

Manuela Ribeiro Sanches – conferência

Diogo Ramada Curto – leitura crítica de texto a indicar em breve


8 de Outubro

Género
António Fernando Cascais – conferência

Salomé Coelho – leitura crítica do texto «Multitudes queer. Notas para una política de los "anormales"», de Beatriz Preciado


15 de Outubro

Mesa-redonda «Política, identidade e movimentos»

Paulo Corte-Real

Sérgio Vitorino

Mamadou Ba

António Guterres

Ana Cristina Santos

Tiago Gillot

Ricardo Noronha


Conferencistas:


António Guerreiro é crítico no jornal Expresso, tradutor e ensaísta. Tem trabalhado particularmente autores como Walter Benjamin e Giorgio Agamben.

Bruno Peixe Dias é investigador do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e da Númena – Centro de Investigação em Ciências Sociais e Humanas. Coordenou, com José Neves, a edição do livro A Política dos Muitos. Povo, Classes e Multidão (2010).

Miguel Serras Pereira é tradutor.

Fátima Orta Jacinto é arquitecta urbanista e estudante bolseira no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde realiza o seu doutoramento em Sociologia, que incide sobre a crítica feminista do espaço urbano contemporâneo.

Hugo Monteiro é doutorado em Filosofia e docente do Instituto Politécnico do Porto. Pós-doutorando na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em torno dos pensamentos de Jacques Derrida e de Jean-Luc Nancy.

João Valente Aguiar é investigador do Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras do Porto. Publicou recentemente o livro Classes, Valor e Acção Social (2010).

José Neves é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é investigador do Instituto de História Contemporânea da mesma faculdade. Coordenou recentemente a edição do livro Como se Faz um Povo. Ensaios em História Contemporânea de Portugal (2010).

Manuela Ribeiro Sanches é professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde investiga nas áreas dos estudos culturais, dos estudos pós-coloniais e dos estudos literários, e é membro do Centro de Estudos Comparatistas.

Diogo Ramada Curto é investigador do CesNova. Dirige, com Nuno Domingos e Miguel Jerónimo, a colecção «História e Sociedade», das Edições 70.

António Fernando Cascais é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Entre outros, coordenou a edição do livro Indisciplinar a Teoria: Estudos Gays, Lésbicos e Queer (2004).

Salomé Coelho é doutoranda em Estudos Feministas na Universidade de Coimbra, com tese sobre Teorias Queer, movimentos feministas e LGBT. É vice-presidente da associação UMAR.

Paulo Corte-Real é professor auxiliar na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. É presidente da Associação ILGA-Portugal.

Sérgio Vitorino é activista LGBT.

Mamadou Ba é activista da associação SOS Racismo.

António Guterres é coordenador do Centro de Experimentação Artística do Vale da Amoreira e é fundador da associação Freestylaz.

Ana Cristina Santos é socióloga e doutorada em Estudos de Género. É investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Tiago Gillot é licenciado em engenharia agronómica e activista do movimento Precários Inflexíveis.


Ricardo Noronha
é investigador do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Portugal sem mais nada: os interesses nacionais (3)

 Aparentemente, pois, as "secretas" também têm os seus PIN /Projectos de Interesse Nacional, singularidades que, por obra e graça de um despacho ou um email, tornam interesses privados de empreiteiros, industriais, hoteleiros, etc., em "interesses nacionais", acontecendo ao secretismo das informações da República o mesmo que aos sobreiros das Reservas Ecológicas e Agrícolas: dão lugar a valores - sem outro sentido - mais altos. Faz-me, contudo, confusão o que seja esse misterioso "interesse nacional" de que tanto se fala e como é que pessoas como o ex-director das "secretas" dão com ele. Em Esparta atiravam-se deficientes do alto do Taigeto em nome do "interesse nacional" e nos saudosos tempos de Salazar abria-se a correspondência e mandava-se gente para o Tarrafal também no seu santo nome. Hoje abatem-se sobreiros e passam-se informações secretas, já é um progresso.

Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo

(o último, que é o primeiro, e depois por aí fora o resto tudo)


A relação entre o homem e a mulher é a relação imediata, natural e necessária do homem com o homem.

Karl Marx


1. RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta.

(Continua do post em baixo)

2. REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer umn borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem

Continua daqui

3. PRODUÇÃO
Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descarnar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.

Maria Velho da Costa, "Revolução e Mulheres"

O reino da empregabilidade: capital humano e empresas de trabalho temporário

Ler 2ª e 3ª parte do artigo aqui e aqui.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Com a verdade me enganas

Iniciei na última quinta-feira uma colaboração regular com o jornal i. De quinze em quinze dias, alternando com o Jorge Bateira. Está aqui o texto de minha autoria publicado na última quinta.

Coisinhas boas

The Frankfurt school is not a building although it did have a building

Nest vídeo ficamos a saber, por exemplo, que "it was very very successful, even more than the American Communist party"




Eis um tesourinho mais deprimente que o "Receitas de Microondas para Um". E mais sinistro que um choque frontal na auto-estrada.

(via Jason Read).

segunda-feira, 25 de julho de 2011

No corpo a corpo com a história


Olhando para trás, o que foi para ti o operaísmo?
Três coisas: um romance de formação intelectual, um episódio da história do movimento operário, uma revolução cultural contra a tradição marxista ortodoxa italiana e não só. Mas, antes de mais nada, uma experiência de pensamento e prática de um grupo de pessoas de extraordinária qualidade humana e políticas, que actuavam na base de um acordo divergente, cimentado por um laço de amizade indissolúvel - qualquer que tenha sido a estrada que cada um de nós percorreu em seguida. Numa palavra, diria que aquela experiência nos deixou um "estilo" inconfundível: desde o modo de escrever, cadenciado como o ritmo da fábrica, ao modo de pensar, fora das normas, numa espécie de "estado de excepção intelectual permanente". Em contacto com a fábrica e com o modelo das lutas operárias surgiu um novo tipo de intelectual, orgânico não com o partido, mas com a classe, e uma nova forma de fazer teoria, não de livro em livro, mas no corpo a corpo com a história, para subverter a ordem das coisas. Uma prática de pensamento político perturbante, irredutível a escolas e tradições, mas que apesar disso fecundou também, posteriormente, inovações disciplinares no campo da filosofia, da sociologia e da historiografia.
 O que era a "rude raça pagã"?
A rude raça pagã era aquela que, em frente aos portões das fábricas, nos tirava os panfletos da mão e perguntava, rindo-se: "O que é isto, dinheiro?". Salário contra lucro, eis o que era a classe. Não o interesse geral, mas um interesse parcial, que desmascarava o universalismo burguês e colocava em crise o conjunto do capital, enquanto relação. "O salário como variável independente" não era um slogan económico, era um slogan político, como se viria a demonstrar em 1969. Mas muito antes do "Outono quente", desde as lutas de 1962, se havia iniciado em Turim a invenção operária de práticas antagonistas na "guerra de posições" quotidiana contra o patrão: as lutas do "gato selvagem", a danificação propositada da produção, a sabotagem da linha de montagem, o uso insubordinado dos tempos de produção do taylorismo. Aprendíamos com isso: a capital, que desejava estender o modelo da fábrica à sociedade, nós respondíamos estendendo o modelo da insubordinação operária à política.
Excerto da entrevista de Mário Tronti a Il Manifesto, por ocasião do relançamento de "Operários e Capital" pela Derive Approdi. Alguns capítulos deste livro (editado em português pela Afrontamento) podem ser lidos em inglês aqui.

sábado, 23 de julho de 2011

Portugal sem mais nada: os interesses nacionais (2)


Mas o interesse nacional, dizia, tem efeitos assinaláveis, como pudemos constatar no que já sobeja de 2011,  um verdadeiro ano da graça.
O Expresso, por exemplo, jornal de referência do liberalismo pátrio, já nos veio avisar que, apesar de defender "desde sempre, a liberdade de expressão e a liberdade de informar" e de repudiar "qualquer forma de censura ou pressão, seja ela legislativa, administrativa, política, económica ou cultural", não irá divulgar "notícias que mereciam ser publicadas em lugar de destaque" mas que sejam "eventualmente nocivas ao interesse nacional". O leitor um pouco mais informado - e decididamente mal-intencionado - recordaria com poucas saudades certos e determinados discursos, apostados em restituir o conforto das grandes certezas às almas dilaceradas pela dúvida e pelo negativismo do século.  Assim são as grandes certezas, quase sempre adversas às pequenas verdades. O resto, dizem-nos, é tão óbvio como aleatório: "O jornal reserva-se, como é óbvio, o direito de definir, caso a caso, a aplicação deste critério".
Mais recentemente veio  Pacheco Pereira, esse farol de pragmatismo político que tanto tem dado à pátria, escrever na Sábado acerca do imposto extraordinário sobre salários e pensões de reforma.  Trata-se ("sem dúvida") de uma "uma violação das promessas eleitorais do PSD e de toda a argumentação que foi usada contra o PS sobre a prioridade das receitas sobre as despesas e, caso se necessitassem mais receitas, de que o esforço seria nos impostos sobre o consumo e não sobre o rendimento". Mas não se trata de uma violação qualquer e, apesar de a democracia se ver por essa via ligeiramente viciada (não confundir com "asfixiada", o que seria completamente contrário ao património programático do PSD), acabou por predominar a mais importante das razões, que é, imagine-se só, o ...interesse nacional.
E ainda não é tudo, uma vez que o Bloco de Esquerda apresentou no Parlamento a proposta de criação de uma comissão para auditar a dívida portuguesa, expeditamente chumbada pela maioria governamental e pelos deputados do PS (com uma excepção) porque poderia "lançar à partida uma suspeição sobre a nossa dívida" (que é, como todos sabemos, absolutamente insuspeita), por ser "inoportuna" e “dar palco à especulação sobre a dívida” (especulação que, como se sabe, está longe de se abater sobre a "nossa dívida") ou, pior ainda, criar "uma comissão política com intenções políticas” (algo absolutamente indigno de um parlamento onde impere a preocupação com o interesse nacional) com o intuito de declarar parte da dívida "ilegítima" (e isto apesar de se conhecerem bem os seus pais e, bem assim, o conjunto da respectiva árvore genealógica). É do interesse nacional não fazer perguntas inoportunas, que possam perturbar os mercados e afugentar os investidores. É do interesse nacional pagar a tempo e horas, sem fazer muitas perguntas e dando graças ao Pai Natal por ainda haver um 12,5º mês. 
Bem se vê que isto do interesse nacional é matéria bem elástica, que dá ora à costa ora  ao largo, um pouco como o consumo, que ainda há pouco tempo era um sinal da modernização do país para agora se tornar uma das pragas do Egipto.
Razão tem a União de Leiria, que abandonou o estádio Magalhães Pessoa (a par das Amoreiras e de certa cassete VHS, uma das grandes obras com as quais Tomás Taveira serviu o interesse nacional), mais os seus "23 835 lugares, totalmente cobertos" para ir jogar para a Marinha Grande. O tempo que esta obra (emblemática de um grande desígnio nacional) levou a tornar-se um símbolo do despesismo (que tão contrário se revela ao interesse nacional), poderia deixar qualquer um zonzo. Razão acrescida para que o Expresso, "como é óbvio", não considere a relevância de noticiar semelhante decisão ou, muito menos, de investigar quem ao certo decidiu, participou e lucrou com tanto cimento aplicado num tão curto espaço e com tão discutível utilidade. Seria no mínimo inoportuno.
Talvez o Público + venha alterar este desconsolador cenário jornalístico. A menos que as seis grandes empresas do PSI-20 que o financiam lhe tenham colocado como horizonte inultrapassável a defesa do interesse nacional. Nesse caso, ainda nos arriscaremos a saber pelo Notícias da Amadora ou pelo Jornal do Barreiro que o litoral português foi vendido a um consórcio de investidores (de contornos por esclarecer), de maneira a reduzir o défice, sustentar a dívida, sossegar os mercados, evitar que os portugueses vivam acima das suas possibilidades e, naturalmente, defender o interesse nacional. O mesmo é dizer, Portugal sem mais nada.

Portugal sem mais nada: os interesses nacionais (1)

 Uma das primeiras e mais notórias vítimas da crise tem sido a capacidade de nos surpreendemos com as coisas que se dizem. 
Apenas uma semana antes da Páscoa, por exemplo, se previa sem qualquer risco de equívoco os comentários de abertura dos telejornais e as manchetes de primeira página que se preparavam para o fim de semana. Fazia sol e calor (mais do que agora, diga-se), avizinhava-se um período de férias escolares, conjugavam-se vários feriados e jornalista algum se privaria do prazer de assinalar que "apesar da difícil situação económica do país", as praias se encontravam cheias. Tão previsíveis como um conjunto de relógios parados, a todos parecia surpreender o facto deste bom povo não ter abdicado do areal ócio para ficar, sei lá, a fazer horas extraordinárias gratuitas a bem da competitividade das "nossas exportações" ou a retocar o seu curriculum para se lançar à conquista do mercado de trabalho. Para os impenitentes optimistas, o consolo possível teria sido a entusiástica (e patriótica) adesão dos portugueses ao principal recurso natural do país, esse grande mar outrora  navegado pelos egrégios avós e disponível agora, sobretudo, para mergulhos e castelos na areia.
Evidentemente que "a difícil situação que o país atravessa" é um dispositivo altamente especializado num restrito conjunto de funções (um pouco como acontece com o peso da construção civil no PIB) e que se revela inútil para outros esforços. Ainda hoje li no Público que os noruegueses não acham mal o escrutínio permanente dos salários e rendimentos dos seus principais governantes e homens de negócios, hábito que apenas se torna mesquinho e terceiro-mundista abaixo do paralelo 40º mas que é revelador de uma inexcedível cultura cívica nas paragens setentrionais, onde até pode ser considerado um elemento de coesão social. O interesse nacional serve para justificar muita coisa, mas de forma alguma o levantamento do sigilo bancário ou impostos extraordinários sobre grandes fortunas ou transparência ao nível dos concursos públicos ou severidade no combate à corrupção ou eliminação de despesas protocolares. Aliás, só pessoas abertamente contrárias ao interesse nacional falam dessas coisas, com o óbvio intuito de desviar as atenções dos temas realmente decisivos, como as eleições internas do PS ou a adesão de Rui Tavares aos Verdes.


Eis a ementa para o almoço. Arrotem à vontade!

Come on, baby, eat the rich
Put the bite on the son of a bitch
Don't mess up, don't you give me no switch
Come on, baby, and eat the rich
Come on, baby, and eat the rich
Come on, honey, eat your supper
Come on, baby, bite that sucker

sexta-feira, 22 de julho de 2011

quem vai ter mais amigos, quem vai?

Carlos Costa confirma que José de Matos é o novo CEO da CGD.

Unipoppers à escuta - Passa Palavra


Além de ser um reflexo da crise financeira mais geral da União Europeia (ela própria resultante de se ter avançado com uma moeda única, o euro, antes de haver qualquer vislumbre de políticas externa e interna únicas, e por isso mesmo sendo a UE regida por um domínio informal dos países europeus com burguesias e bancos mais fortes, como a Alemanha e a França), a crise específica que se vive em Portugal tem características locais próprias que resultam da fraca evolução e modernização do capitalismo português nestes 37 anos de democracia parlamentar. É uma crise de produtividade resultante, em primeiro lugar, da secular tendência parasitária da classe empresarial portuguesa, oportunista e habituada a encostar-se ao poder do Estado, e sobretudo inculta e incompetente, se comparada com as suas congéneres da restante Europa, excepto talvez a grega – um estudo recente mostra que 75% dos empresários portugueses não concluiu o nível de estudos secundários. A integração deste país (formalizada em 1985) numa Europa muito mais desenvolvida, canalizados os enormes “fundos de coesão” recebidos para a constituição rápida e improdutiva de novas fortunas, paulatinamente liquidadas as actividades económicas básicas de auto-subsistência (agricultura e pescas) que poderiam conter a sua crescente dependência do exterior, transformou Portugal num país de tasqueiros (turismo) e de empreiteiros (construção civil). O turismo tem crescido à custa de uma força de trabalho pouco qualificada, sazonal e precária, e o seu desenvolvimento não foi orientado por políticas urbanas e de gestão de solos de longo prazo, mas por sistemáticas jogadas de curto alcance e enriquecimento fácil. A construção civil (incluindo uma plétora absurda de obras públicas, sobretudo auto-estradas) cresceu no essencial à custa da força de trabalho de mais de meio milhão de emigrantes africanos e leste-europeus. Betão [concreto] e serviços – além do mais, dois campos férteis para o alastramento da corrupção. 
É essa classe que, através dos dois partidos dominantes, PS e PSD, tem dominado Portugal nos últimos decénios. É ela que, agora, está sendo escrutinada pelo frio e mais exigente capitalismo do norte da Europa. 
Acampados, Colectivo Passa Palavra

terça-feira, 19 de julho de 2011

Génova, dez anos depois.



As manifestações de Génova contra o G8 em 2001 e o seu trágico desenlace marcaram toda uma geração e todo um momento político. Dez anos depois persistem ainda várias questões relativas ao que realmente se passou naqueles dias de Julho - quem disparou a arma que matou Carlo Giulliani, quem ordenou e orquestou as cargas da polícia desautorizadas pelo comando central, quais foram as consequências legais para os manifestantes presos e para os polícias que invadiram a escola Diaz. Uma oportunidade de discutir tudo isto e muito mais amanhã no RDA a partir das 20h.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

a história continua… pertinho.

“Lutar contra o fascismo em nome da democracia não passa de lutar contra uma forma do capitalismo em nome de uma outra das suas formas, susceptível a todo o instante de se transformar na primeira”, George Orwell.

Não se pode chamar de amnésia. Não podemos esquecer aquilo que nem sequer pudemos saber. O tempo presente converteu-se num aspirador macro-histórico, capaz de desvanecer da memória colectiva (“memória colectiva” parece já um anacronismo) qualquer referência ao conflito social, ao antagonismo dos poderes, à visão libertária, à consciência de classe, para usarmos um termo tão anquilosado, como drasticamente necessário.

A pós-modernidade é também esse vácuo indolor, essa cínica crença de que tudo começa do ponto zero, de que tudo é eternamente novo. Como numa campanha publicitária... ou no telejornal… nada se repete, tudo se renova, como o papel higiénico. Com a pós-modernidade como cenário e a história oficial como verdade cultural, recuperou-se a Revolução Social Espanhola para a visão histórica e episódica da teoria democrático-burguesa. Essa teoria que consegue fazer esquecer por completo 7 milhões de operários e operárias em auto-gestão, ou convertê-l@s numa massa que lutou pelo advento da democracia e da consolidação da sociedade do bem-estar! O mito da falsa democracia falou mais alto, sublimando provavelmente o mais sólido processo revolucionário europeu, aquele que transformou radicalmente a lógica das relações de poder em todos os aspectos da vida, para mudar a sociedade e o quotidiano.

Não é por acaso que quando os operários começaram a radicalizar o seu movimento durante os anos de 1936/39 reivindicaram a sua total "autonomia", ou seja, a independência quer da burocracia estatal vertical, quer face a representações estrangeiras, como a independência face aos partidos ou a grupos de trabalho clandestino. Para eles tratava-se de agir em conjunto para resolverem os seus próprios problemas e assuntos, directamente e com as suas próprias regras, para tomar as suas próprias decisões e definir a sua estratégia e tácticas de luta, enfim, para se constituírem como movimento revolucionário.

A liquidação da memória histórica associada às lutas dos assalariados significou a eliminação de toda a perspectiva revolucionária. Se ela hoje nos faz falta? Se vale tanto como a mijona ou o mexilhão na maré vaza? Perguntem-se vós… Que acabou a História? Que o proletariado não existe? Que a luta de classes é do século XIX? Que somos ingénuos? Que 1984 era um filme de ficção? Que os “porcos” não triunfaram? Que não existem “PIGS”? Que ao lado, por cima e por baixo da Moody’s não existe um conjunto de seres forrados de lixo por dentro e de luxo por fora? Que vasculhar no lixo ao lado do Pingo Doce é desporto, parkour-esofágico? Que as filas na segurança social são uma fábrica de talentos falhados? Que com 500 euros no bolso, bem contadinho, dá prá jola, pró tremoço e ir a banhos ao Algarve (ou Alentejo, pois…) e o resto é paisagem, sonhos, utopias, lirismo, poesia, tretas tretas…

George Orwell, alguns anos depois do fim da guerra civil, escreveu: “A História parou em 1936”. Parou de facto, em amplos sectores da sociedade espanhola, a dominação social, económica, estatolátrica e patriarcal, essa dominação que a própria História prefere ensinar. Não embarquemos no faducho, não choremos nós sobre inércia derramada. Mas poderemos silenciar as tentativas emancipatórias do ser humano? Poderemos esquecer outra forma social e económica de entender as relações humanas? Poderemos ficar com a história que nos vendem a trouxe-mouxe? Poderemos ficar parados e viver o desastre? Contentes, por todos dispormos do direito a pensar e agir, mas termos perdido a faculdade de o fazer? Ou, pior ainda, incomensuravelmente mais desastroso, fazer parte dessa imensa ausência de esforço para compreender e agir?

Todavia, a história continua… pertinho.

ES.COL.A - espaço colectivo autogestionado do Alto da Fontinha

sexta-feira, 15 de julho de 2011

É mangas de cabedal, man

Vim a saber através do Javali Sentado que a Conceição Cristas resolveu banir gravatas no seu Ministério. Faz parte de uma iniciativa denominada Ar Cool. Pois bem, parece-me mais uma medida insuficientemente ponderada. Como é sabido, a essência do cool (a cooleza, ou coolice, se quiserem) está toda nas mangas de cabedal. É silogístico e irrefutável. Ora vejam.

Blusão de cabedal:


COOL!
  Colete de cabedal:


NOT COOL!

Quod erat demonstrandum.


Roubado do genial Demetri Martin.


Vai trabalhar vagabundo!

Todo o filho-de-deus colabora com todo o filho-de-deus na tarefa comum de aperfeiçoar-se e especializar-se em fazer ou não deixar fazer, a fim de impedir uma vida despreocupada. (...)
Todo o filho-de-deus acha que fazer é um sacrifício e uma devoção, mas também um dever, é isto que todo o filho-de-deus acha; por isso todo o filho-de-deus especializado em fazer chama a si o sacrifício e a devoção e o dever de fazer e: ao filho-de-deus especializado em não deixar fazer, dá o encargo de não permitir que sejam rejeitados o seu sacrifício, a sua devoção e o seu cumprimento do dever (...)
Ainda quando está liberto de trabalhos, o filho-de-deus preocupa-se com o que os outros estão a poder fazer na sua ausência; o filho-de-deus preocupa-se com o que os outros fazem na sua presença e na sua ausência, e até com o que os outros não fazem mas podiam fazer. ‘Vai trabalhar, malandro’, diz ele, e ainda: ‘Como é que isto pode ir para a frente sem se fazer nada?

Alberto Pimenta, Discurso sobre o filho-de-deus ao qual se segue o discurso sobre o filho-da-puta



So tonight gotta leave that nine to five upon the shelf
And just enjoy yourself
Groove, let the madness in the music get to you
Life ain't so bad at all
If you live it off the wall

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Para quem acha que o bloco não vai lá sem o louçã...

"Achava que o Trotsky era uma figura muito romântica. E ainda hoje acredito que as pessoas nascem iguais, com direitos iguais. Não tem nada a ver com esquerda ou direita, tem a ver com humanidade. Fui das primeiras pessoas em Portugal a ir à Rússia com autorização da ditadura e vim de lá completamente revoltada porque vi que afinal o país de Karl Marx era onde havia maior repressão, desigualdades, falta de informação".

Lili Caneças, aqui

Um semântico incurável


ABANDONAI TODA A ESPERANÇA
VÓS QUE AQUI ENTRAIS


Now you're getting into semantics! Em inglês vernacular, a palavra semantics é quase sem excepção usada depreciativamente, para designar aquele ponto numa discussão em que já não se discute nada, ou nada de concreto. (Ah como é reconfortante, apesar de dura, a concretude!). É o reino das palavras, dos fiozinhos enredados que as entretecem, dos buracos que elas têm no fundo, que deixam passar o vento e não permitem transportar a água do conteúdo em paz. A semântica (ou o semântico), neste sentido, é um lugar simultaneamente escorregadio e pantanoso: por um lado, patina-se desgovernadamente porque não há um sítio firme onde nos agarrarmos e, por outro, acabamos por ficar lá atolados (bogged down, dizem eles). Em português, a ideia de retórica ocupa um lugar algo semelhante, embora seja uma coisa menos lamacenta. Seja como for, o certo é que não leva a lado nenhum. A semântica baralha as ordens, atrapalha as leis, desconcerta a gestão necessária. E empata lutas. Quando em conversa as pessoas perguntam “tás a ver?” (“know what I mean?”), é suposto a outra pessoa dizer (ou simplesmente acenar) “estou a ver sim senhor, atão não se está mesmo a ver?”.



Quando se fala de política deparamo-nos com muitos praticantes do salto à vara. Saltam sobre novelos semânticos para chegar ao que interessa. O pior é que a vara é semântica, a barra é semântica e, sobretudo, o colchão onde aterram felizes da vida e saltam de braços para o céu é tão semântico que até dói. A vida não é só palavras, e há muitos gestos em política que podem e devem operar para lá ou aquém dos enredos que nos enredam. Que não esperam pelo selo dos significados. É neste sentido que a política é estética: a sua primeira função é desarrumar, improvisar sem esperar pelo perfeito encaixe dos conceitos. Mas mesmo aqueles com grande poder de impulsão emancipatório, que com um valente salto suspendem por momentos a força da gravidade dos significados, perceberão que os enxames de palavrinhas lhes mordem logo os calcanhares. Isto para não falar do facto de há muito terem colónias em feroz procriação nos cantos mais escuros da mioleira. Mas saltam. E depois viram-se para os outros e dizem: “Estão a ver?”


quarta-feira, 13 de julho de 2011

O reino da empregabilidade: capital humano e empresas de trabalho temporário. 1) O «capital humano»




A relação entre trabalho e capital foi, desde sempre, marcada por alguma indeterminação: os trabalhadores nem sempre sabiam o que podiam esperar da empresa e esta, por sua vez, nem sempre sabia o que podia esperar dos trabalhadores. O Fordismo, tanto na sua dimensão económica, como também social e política, representou a tentativa de abolição dessa incerteza, presente em ambos os lados da contenda. De um lado, as empresas, através da organização científica do trabalho, garantiram a subordinação real do trabalhador à máquina produtiva e, por conseguinte, uma estimativa precisa da sua performance; e, em troca, mercê de um antagonismo manifesto, os operários vieram a obter um conjunto de direitos sociais, constitucionalmente consagrados.

No entanto, mais do que isso, o regime fordista constituiu o reconhecimento da necessidade de se encarar o trabalhador como parte da obra da empresa, tomando a sua vida como objecto de produção. Deste ponto de vista, e embora surja apenas em meados da década de 60, a ideia contida no conceito de «capital humano» encontra-se longe de poder ser enquadrada numa ordem de ideias pós-industrial ou pós-moderna.

Os desafios representados pela evolução do sistema de produção, crescentemente dependente de elevados níveis de cognição humana, exigem novos métodos de abolição da incerteza acima mencionada. O objectivo deste artigo é, a partir da análise de anúncios de emprego produzidos por empresas de trabalho temporário, compreender quais os critérios que devem orientar a autoprodução dos trabalhadores da nova economia.

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Mau Maria!

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Capital vai ao cinema



Para quem se interessa pelas danças do Capital e pelas imagens que dançam. Os abstracts têm que ser enviados até 1 de Dezembro deste ano.

Call for Papers
Marx at the Movies Conference

University of Central Lancashire
March 16-17, 2012

Talvez se me guardarem no frigorífico

Está-se a tornar difícil não me transformar num poeta azedo. O ano vai ficando mais desabrigado. Passou certamente o tempo da viola. Não cantarei as Índias mentirosas. Vou fazendo planos para nascer outra vez.  
Talvez sigam cartas explicando como a guerra começa.  

Animais de fogo


Um dia
o homem é posto à prova, interrogado
pelas areias moventes;
desaba sobre ele a tempestade
que o quer afogar.
Cautela com os animais de fogo!


Passou o tempo da viola.
Também não aceito cantar as Índias
mentirosas. Segue carta
explicando como a paz começa.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Quem quiser assistir à crise, procure o seu lugar


Doris Salcido, Noviembre 6 y 7
 E o melhor é agarrarem-se bem.

Abutres

Num café aqui perto de casa estavam uns flyers da RE/MAX, que me fizeram perceber que tenho andado a ver coisa toda ao contrário. Parece que "Em tempo de crise aparecem as melhores oportunidades":


Fiz uma breve pesquisa na net e, ao lado da imagem em baixo, de uma senhora de sorriso largo e um ar de o-voto-é-secreto-mas-não-estou-cá-para-enganar-ninguém, pode ler-se que a Re/Max tem medidas anti-crise. Gosto sobretudo que estejam a ajudar os coitados dos bancos:


A Re/max comercializa imóveis penhorados

“Esta é mais uma medida anti-crise da RE/MAX. Por um lado, vem ajudar a banca a escoar os imóveis penhorados que prejudicam o balanço das instituições bancárias ao mesmo tempo que dá a oportunidade a novos interessados de acederam a um conjunto de imóveis com condições de venda mais competitivas, num momento em que o acesso ao crédito está mais condicionado”, refere Beatriz Rubio, presidente-executiva da RE/MAX Portugal.



I am a Chancho

(Obrigado ao Nuno Efe, que me vai passando as suas descobertas)




I am Chancho!
Ah sim, e então o que é que fazes?
Trabalho nas obras!
De onde é que vens?
Da minha terrinha!
Ah sim, e então o que é que passas?
Passo muita fominha!

Olha que três


Um debate da London Critical Theory School, entre o Boaventura, que é cá do burgo, o Balibar, que é universal, e a Esther Leslie, que é minha (orientadora).

Ainda não ouvi, nem sei sobre o que é, mas promete: AQUI.

Mais ou menos vivos

O segredo é mantê-los mais ou menos vivos.

Construir postos de abastecimento distribuir
sossegos para o estômago uns cobertores lenços
de papel vê-se nos filmes quando alguém chora
papel de parede assim florido para o céu
da boca isto são outras metereologias
que ninguém percebe bem as estações do humano
e estamos em época de muitos desastres
naturais naturalmente. Não esquecer
em particular de manter os braços vivos em redor
da emergência social que olha emerge emerge olha
azar juntem-se aqui é mais quentinho aqui
no social estamos em família como te chamas
que olhos lindos tem o miúdo vê-se a alma
a ver se não estoura é ir fazendo as rezas
e seguindo as setas tragam os mantimentos
e a voz cantem os males espantem os maus
pensamentos. Deixem-se estar por aqui.

Isto vai tudo ao sítio vão ver.

É aguentar que isto passa olha toma
umas roupinhas e um naco de alma.
Cheira muito mal mas faz falta
é o que é enfim é assim como o mundo.

sábado, 9 de julho de 2011

Falam, falam, falam

Em 2008 a culpa foi da ganância. A receita foi moralizar o sistema, arranjando alguns bodes respiratórios para tentar acabar com a cobiça. Mas as coisas ficaram como estavam. Actualmente, cavalgam a onda da indignação patriótica e de direita, com o cinismo em forma de ideologia a tomar conta dos ecrãs. Previsivelmente as coisas vão ficar como estão. É caso para dizer: falam, falam, falam...



Talk talk talk talk
All you do to me is talk talk
When every choice that I make is yours
Keep telling me what's right and what's wrong
Don't you ever stop to think about me
I'm not that blind to see that you've been cheating on me

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Ainda a propósito de taxistas desusados

Taxi Suite (excerpt: 1. After Anacreon)


When I drive cab
I am moved by strange whistles and wear a hat

When I drive cab
I am the hunter. My prey leaps out from where it
hid, beguiling me with gestures

When I drive cab
all may command me, yet I am in command of all who do

When I drive cab
I am guided by voices descending from the naked air


Get out of your beds and stop painting fucking trees!

Eis a abordagem-taxista ao consagrado género Carta a um Jovem artista:





(With thanks to Holly)

Mas os dias são cinzentos a cara é azul e a dinamite vermelha e amarela






Estarei na próxima edição de VERDES SÃO OS CANTOS no Bar A Barraca, já este SÁBADO, dia 9, a partir das 10h30. Entrada livre e vagabunda. A ler uns poemas e outras coisas da vida e não só. A dar dois dedos com quem por lá aparecer. Quem sabe a atear fogo à palha podre do colchão e dançar de alegria no meio das labaredas enquanto os ouço crack crack como castanhas ao lume.

Com concerto d'O Quarto Fantasma.

Eis a presentação oficial do Ciclo:  
Verdes são os Cantos é um ciclo mensal, organizado por Catarina Nunes de Almeida. Tem como objectivo reunir novos nomes da poesia e da música portuguesa. As sessões dividem-se em dois momentos – um recital poético e um concerto. Porque o mote destas sessões é a poesia, os poetas e os músicos trazem algumas escolhas de “autores da sua vida” que são lidos e comentados juntamente com o público.

Reificação e utopia no ténis. Notas sobre a insuficiência das apreciações à priori

Recentemente alguém classificou o ténis como um desporto de meninas. E fê-lo socorrendo-se de uma sumidade literária, David Foster Wallace, e de um indivíduo que assina com o nome de maradona. Além da análise estar cheia de preconceitos e de indiciar um desconhecimento empírico da modalidade, o postador atribui a David Foster Wallace aquilo que ele nunca disse. Dizer que David Foster Wallace se esforça por provar que o ténis é um desporto de meninas, que desconstruindo quer dizer o «ténis não é um desporto para machos», é não ter lido, nem treslido, uma linha dos três textos que David Foster Wallace publicou sobre o ténis*. Das três uma, ou o postador está de má-fé, ou quer-se armar ao pingarelho, citando uma sumidade literária, mesmo quando o exercício de name-dropping lhe sai ao lado, ou então está a fazer batota.

Quem for ler os textos constatará a enorme familiaridade de David Foster Wallace com o ténis, que inclusivamente alimenta o sentido utópico de uma modalidade ambígua. Sobretudo quando refere a beleza cinética de uma partida de ténis, ou quando compara as pancadas de Federer, como a sua esquerda descruzada a uma mão feita em topspin, a uma experiência religiosa! Curiosamente, esta interpretação aproxima-se da realizada por João Bénard da Costa ao filme «Ordet», do Dreyer, quando comparou a ressurreição do Johannes na fita a um milagre religioso. Coisas que só os vencidos do catolicismo conseguiam vislumbrar...

Numa toada mais populista, David Foster Wallace refere ainda que quem nunca jogou ténis (e Wallace jogou ténis de alta-competição) jamais compreenderá o que é ter um bom jogo de pés, planear jogadas de antecipação (que os mais ousados costuma chamar xadrez em movimento), nem a graça, o toque, a coordenação, a subtileza, o controle e a inteligência que o ténis requer. Sem querer entrar no capítulo dos essencialismos, talvez o ténis seja mesmo para meninas, ou pelo menos para gente menos embrutecida. Para os que leram David Foster Wallace mais apressadamente, ele sumariza: «I submit that tennis is the most beautiful sport there is and also the most demanding. It requires body control, hand-eye coordination, quickness, flat-out speed, endurance, and that weird mix of caution and abandon we call courage».